Um dos maiores segredos do Vale do Silício: Bill Campbell

Eu estava no TechCrunch 2013 em San Fran levando a minha empresa para o Startup Alley e tive a oportunidade de ver a entrevista do Marc Benioff (Salesforce.com) com o Michael Arrington. O Arrington tem a propriedade de colocar os entrevistados contra a parede, como quando entrevistou Fred Wilson e provocou-o a falar que muitos empreendedores de sucesso tinham personalidades limítrofes e que em alguns casos alguns já cometeram crimes (isso foi no TechCrunch 2013 NYC – veja matéria no Startupi).

O Arrington estava seguindo o seu script usual com Benioff quando provoca-o sobre Larry Elisson, da Oracle. Benioff diz de forma clara que Elisson é um dos mentores dele e que não tem mais ninguém no mundo dos negócios com quem ele aprendeu mais e que ele tem gratidude imensa pelas lições de negócios aprendidas.

Depois, Arrington provoca Benioff sobre Steve Jobs, tentando colocar Benioff contra os executivos atuais da Apple. Neste momento, Benioff fala que foi funcionário da Apple (programou jogos em Assembly para o Mac original) e que Steve Jobs também foi um mentor dele. Ele explica que muito do que foi criado na Salesforce foi provocação de Jobs e fala de forma bastante emocionada sobre a relação entre eles.

Ele comenta que, ao final do funeral de Jobs, todas as pessoas ganharam o livro “Autobiografia de um Iogue”, de Yogananda. O cerimonial foi planejado pelo próprio Jobs. E revela como Jobs foi um guru para o Benioff. Toda vez que o Benioff tinha um problema maior, ligava para Jobs que o ouvia, ajudava, provocava, etc. Veja o vídeo e veja que a marca da AppStore era do Benioff, que doou para o Jobs por uma boa razão. E veja como ele critica o filme sobre Steve Jobs, dizendo que não faz honra ao lado espiritual da personalidade de Jobs; que o filme traz um lado real e sensacionalista de Jobs, mas que manda uma mensagem errada para empreendedores.

Mentor-mor dos mentores

A forma como Benioff é grato a Elisson e principalmente a Jobs, tratando-os como mentores, me impressionou. Assim como me impressionou a figura do Bill Campbell no livro de Ben Horowitz. Se tem algum livro sobre empreendedorismo que você deve ler, leia o do Horowitz (The Hard Thing About the Hard Things).

No livro do Horowitz, fica claro o papel do Bill Campbell nos momentos mais críticos de sua vida. Era o mentor, alguém que discutia caminhos. Campbell pode ser considerado um dos maiores segredos do Silicon Valley. Ele é considerado o mentor dos mentores.

Quem foi VP de Marketing da Apple contratado por Sculley e continua na Apple até hoje e sempre caminhava com Jobs?
Bill Campbell.

Quando os investidores pensaram em tirar Bezos da presidência da Amazon, quem foi enviado para avaliar a situação?
Bill Campbell.

Quem foi o profissional que acompanhou a entrada de Eric Schmidt como CEO da Google até o momento em que os fundadores pudessem assumir posições mais estratégicas?
Bill Campbell.

Acredito que este coaching de gerações anteriores para as novas gerações, que vejo presente no Silicon Valley, seja uma das razões do sucesso daquele região, acelera as empresas por lá.

Qual a nossa cultura neste sentido? Você tem ou conhece boas histórias de mentores no Brasil? Ou somente conhecemos professores de surfe que nunca subiram em uma prancha?

Agradeço ao Pierre Schurmann.

Originalmente publicado na Startupi em 20/03/2014

Eu não acredito em Salvador

Eu não acredito em Salvador como mercado. Acreditar em Salvador como mercado é se contentar com menos de 1% do PIB brasileiro. Eu não gostaria que nossos líderes empresariais e políticos se satisfizessem com 1% do PIB brasileiro.

Vemos muita discussão sobre balança comercial nacional ou estadual. A diferença do que exportamos e importamos.  Eu nunca vejo a mesma discussão para a esfera municipal.

E podemos, para o planejamento da nossa cidade, fazer uma analogia com o que aconteceu entre China e Brasil. Em 1978, a China tinha 1 bilhão de habitantes e o Brasil tinha 100 milhões de habitantes. Teoricamente, o mercado interno da China era 10 vezes maior que o brasileiro.

De lá para cá a economia brasileira cresceu 12 vezes e a chinesa, 45 vezes. Não se pode atribuir esta performance ao regime autoritário existente naquele país, pois o regime autoritário existe desde a Revolução de 1949. E de 1949 até 1978 a China não foi reconhecida pelo seu crescimento econômico.

A diferença essencial é que a China, a partir de 1978, foi orientada a competir globalmente para conquistar mercados externos. É a mesma lógica que foi utilizada pela Coréia do Sul. Os chineses e os sul coreanos não confiaram no mercado interno. E é a mesma lógica que devemos aplicar na nossa cidade.

Temos que pensar que o Brasil é um mercado externo a ser alcançado, que devemos exportar para o Brasil tendo Salvador como base de produção.

Caso não tenhamos este racional, da mesma forma que algumas indústrias brasileiras foram dizimadas com a entrada de concorrentes chineses, empresas maiores, com ganhos de escala vindo do resto do país, irão pressionar o nosso mercado local.

Neste sentido, eu não desejo uma reserva de mercado criada e sustentada pela prefeitura de Salvador ou pelo governo do Estado. Ambos podem ter um papel interessante gerando demanda qualificada: contratando de empresas locais produtos e serviços que possam posteriormente ser exportados. Não comprar o lugar comum, comprar o futuro.

Desta mesma forma, eu desejo que sejam incentivadas e atraídas empresas que tenham receita fora da cidade e injetem este dinheiro na nossa economia, contratando gente aqui e demandando serviço local. Isso pode tornar nossa economia mais forte e sofisticada. Não faz sentido dar desconto de ISS para empresas que tem um mercado eminentemente local ou já competitivas. É um incentivo fiscal sem lógica.

A atitude da prefeitura de incentivar a cultura e criar um calendário de festas é um excelente primeiro passo. Amplia a permanência do turista na cidade e aumenta a demanda por novas visitas. Cultura e turismo em Salvador são produtos internacionalmente competitivos e que estão mal explorados. É a primeira etapa de uma possível reinvenção da estrutura econômica da cidade.

Coluna publicada no Bahia Notícias em 11/Abril/2014

O silicon valley já foi um lugar mais divertido.

our message to the competition is simple and straightforward national

Isso é fruto da personalidade de Bob Widlar. Gênio do projeto analógico de chips. Veja também sobre ele no Wikipedia. Um trecho do artigo acima que continua válido até hoje.

“His principle was “designing for minimum phone calls” and “if you make a million ICs; you get half a million phone calls if they don’t work right”.

Li algo semelhante no livro Marketing High Technology.

O fim do WhatsApp, NetFlix e Skype

A forma como você usa a internet, o peso do acesso no seu bolso e o futuro da rede é assunto de uma das atuais batalhas entre o Poder Executivo federal e o Congresso Nacional. É uma parte do Marco Civil da Internet: a neutralidade da rede.

Atualmente, no Brasil, seu provedor de internet não bloqueia seu acesso a um determinado conjunto de serviços, nem pode tornar o uso de uma rede social pior que outra. Isso é neutralidade da rede: significa a inexistência de discriminação sobre o que se trafega. A neutralidade da rede não está relacionada com a velocidade contratada.

A empresa de telecom deve ter o direito de cobrar de forma diferenciada por ofertar uma internet mais rápida ou mais lenta. Se cair a neutralidade você poderá contratar 10 Mb de internet que não permite acesso a um serviço como Skype. De acordo com a neutralidade, depois de contratado um serviço de internet com uma determinada velocidade, o seu uso não deve ser discriminado. Foi este princípio que tornou a internet o berço de tanta inovação nos últimos 20 anos.

É por causa da neutralidade da rede que empreendedores, no mundo inteiro, podem ter ideias inovadoras sobre como usar a internet. Mas será que algum empreendedor teria motivação para inovar sabendo que a empresa de telecom poderia, a qualquer momento, bloquear o serviço que ele criou? Ou seja, o fim da neutralidade da rede também implica o desincentivo para o surgimento de novos e inovadores serviços.

Caso a neutralidade caia, no futuro você poderá comprar um pacote de dados da sua operadora de telefonia celular sem WhatsApp, pagando mais barato, ou com WhatsApp, pagando mais caro. Poderá ficar limitado a um serviço de filmes próprio da sua operadora de internet residencial ou pagar um pacote adicional para ter acesso ao YouTube. Talvez nem possa mais fazer uma chamada via Skype/Viber ou Hangout para um parente no exterior.

O Marco Civil da Internet afeta diretamente seu estilo de vida. Como o deputado que você colocou no Congresso vai tratar deste assunto?

Coluna publicada no jornal A Tarde em 19/Mar/2014 

It’s the User Experience, stupid!

Ou como uma boa UX é essencial para startups competitivas.

Em meados dos anos 90, como gerente de tecnologia, eu tive que implantar um sistema de folha de pagamento numa empresa. A solução para o meu problema era óbvia: implementar o RM Folha, líder absoluto de mercado na época. Quando o vendedor da RM me apresentou a proposta, ele me ofertou o RM Folha Windows, que estava sendo lançado para fazer frente ao RM Folha DOS, que era o produto tradicional.

Eu, então, pensei como um engenheiro de software: vamos com o RM Windows, banco de dados relacional com arquitetura cliente server, moderno, multitask é uma decisão fácil.

Depois de um tempo, começaram as reclamações: “este software não funciona, é ruim, pouco produtivo etc”. Eu resolvi checar de perto a operação, ir ao chão de fábrica e acompanhar o operador dando a entrada de um novo funcionário no sistema Windows e fazer a comparação com um sistema DOS.

A diferença a favor do DOS era absurda: nele, o operador não tirava as mãos do teclado para nada. Era possível entrar as informações com velocidade e operar o sistema de forma fluida. As telas faziam sentido. O fluxo de trabalho era muito mais eficiente na versão DOS do que na versão Windows.

Estamos falando de uma boa experiência com usuário (UX) num mundo pré-interface gráfica. Com um aplicativo do tipo console em uma tela de 80 x 24 caracteres.

Sabre

Sabre

Da mesma forma eu vejo o sistema SABRE, que existe desde 1950. O sistema SABRE é baseado em seqüências de textos que são colocadas numa linha de comando. Com uma linha de comando, o operador consegue listar todas as opções de vôo entre dois aeroportos, filtrando por datas, stop overs etc.

W/-ATMAD‡CYSEVILLE, ES

A linha de comando acima pede a distância entre dois aeroportos. Quando um operador experiente em SABRE tem que operar um sistema equivalente na Web você vê no olho dele a decepção.

Hp12c

HP12c

Existem outros casos clássicos de boas UX, como a calculadora HP 12 C. Foi o maior fator de lock in criado por uma interface já ocorrido. A HP deve ter uma margem de lucro de 99% em cada calculadora, simplesmente pela razão de que todo o setor financeiro sabe usar a HP 12C para fazer os cálculos do dia a dia e a maioria dos usuários não quer aprender algo novo. Outro caso é o módulo de operação do projeto Apollo.

Apollo DSKY

Apollo DSKY

About Face 3Uma boa UX está relacionada com a produtividade. Uma boa User Experience é feita para um usuário que foi educado pela própria interface a usá-la de forma eficiente, como indica Alan Cooper no livro “About Face 3”. E uma boa UX é essencial para termos startups competitivas. É fácil elogiar a interface limpa do Google, que tem um único campo e lista os resultados. Não tão fácil é criar uma boa experiência com usuário num lançamento de notas para contabilidade ou operações de uma planta industrial.

Isso demanda o conhecimento profundo dos processos, para saber como criar os elementos e rever a forma de trabalhar. Quando trabalhei no site de pré-venda do Rock in Rio 2011, questionamos até as regras de negócio do cliente para mudarmos o fluxo de compra, diminuir o tempo de atendimento e aumentarmos o vazão do sistema. Decisões de UX foram essenciais para aumentar a performance do sistema e diminuir a quantidade de servidores usados.

Um bom especialista de UX tem a UI como base e tem que saber programar. Tem que focar no comportamento dos elementos. Deve programar o mínimo para deixar claro para os engenheiros de software como o software deve se comportar. UX é comportamento, UI é visual. Como o software se comporta é tão ou mais importante do que como ele aparece. Pense que a interface do Gmail não foi criada sem pensar também no comportamento. O software pode ser lindo esteticamente, mas se o cliente / usuário sofrer para executar o que precisa, não vai ter estética que mantenha o cliente satisfeito. Como disse Jeff Hawkins, criador do primeiro PDA de sucesso, o Palm Pilot, “devemos ser todos ‘tap counters’”. Jeff Hawkins dava muita importância ao número de taps que um cliente tinha que dar no Palm Pilot para que executasse uma ação. Ele dizia que tudo tinha que ser conseguido com menos de 3 cliques (taps).

Uma boa User Experience une arte e engenharia por meio de métricas, análise e um uso consistente de testes. É melhor um teste fraco do que nenhum. Os testes podem indicar mudanças na UI para comunicar muito com pouco. Comunicar muito com pouco é algo chave. Entender qual é a informação ou ação mais relevante para o usuário e colocá-la com uma hierarquia correta.

A capacidade de abordar a UX como engenharia e arte é essencial. Um bom profissional de UX que queira juntar as duas expertises, cuidando da parte visual e fazendo um desenvolvimento centrado no trabalho do usuário, é um fator competitivo de grande valor numa startup. E dá muito trabalho fazer isso direito.

Por isso é que uma start up, nos dias atuais, para ser competitiva, tem que ter uma UX adequada. É nítido o diferencial de um especialista de UX que consiga dar este passo além da UI. É um ativo que qualquer startup pode e deve alavancar.

Links relacionados:
http://littlebigdetails.com/
http://www.nngroup.com/articles/ten-usability-heuristics/
http://www.cooper.com/
http://www.edwardtufte.com/tufte/
http://thehipperelement.com/post/75476711614/ux-crash-course-31-fundamentals
http://www.stcsig.org/usability/topics/articles/he-checklist.html

Obrigado a Roxana Borges, Danilo Risada e Joniel da Silva

Originalmente publicado no site Design Baiano em 7 de março de 2014 at 20:09

Empreendedor: você também precisa ter sorte

Em 2006, a empresa TradingMarkets pediu que 10 playmates da Playboy fizessem um portifólio de investimentos com 5 ações na bolsa de valores. Depois de um ano o resultado da escolha das playmates foi comparado com o resultado dos fundos de ações tradicionais. A ganhadora foi Deanna Brooks, apurando 43% de retorno com um portifólio que incluía a Petrobrás.

Caso eu pedisse para a mesma Deanna Brooks que fizesse 10 obturações em dentes cariados, o resultado não seria o mesmo. Nunca um leigo conseguiria uma melhor performance que um profissional numa área como odontologia.

Existem profissões em que a habilidade é o fator que importa. Não existe muita sorte numa cadeira de dentista. Existem contratempos, mas eu não diria que a sorte desempenha um papel fundamental na profissão de um dentista ou de um piloto de avião.

Já não posso dizer o mesmo da profissão de quem trabalha em mercado de capitais ou – no caso de muitos que lêem este texto – de quem é empreendedor. Você precisa de sorte e você precisa entender o papel que a sorte exerce sobre o seu destino.

Para isso, vamos pensar que o resultado é a combinação de habilidade com acaso. A sua habilidade pode variar de -50 até 50 e a sua sorte pode ser de -100 a 100. Sorte negativa, neste caso, é o que chamamos de azar. Habilidade negativa é não entender nada. Habilidade zero é treinamento mínimo para desempenhar a função.

Se você começasse a operar na bolsa de valores no período de Jun/2005 e saísse em Dez/2007, sem treinamento específico, iria somente por chance ganhar muito dinheiro. A sua habilidade teria sido -50, mas a sorte contou a seu favor. Pois na nossa equação, a sua habilidade foi -50, sua sorte é foi 100 e o seu resultado final foi 50. Se você entendesse muito de mercado de capitais você teria uma habilidade de 50 com a sorte de 100 e teria o resultado de 150.

Há casos em que você já entraria no jogo perdendo. Se, da mesma forma, você é colocado num avião a 35.000 pés e pedem para você pousar, não existe nada neste mundo que deixe acreditar que por chance você consiga um resultado positivo. A sua habilidade é -50, a sua sorte é zero (um dia normal para um piloto) e neste jogo se o seu resultado for menos que zero, você está morto. Para sair vivo, neste caso, sua habilidade mínima é zero.

Da mesma forma, pense em duas pessoas. Moram uma do lado da outra em um condomínio, estão com 40 anos e conseguiram 2 milhões de reais de patrimônio. Um é dentista, muito bem sucedido, nascido em uma família de classe média com uma boa educação. O outro é um catador de lixo que achou um bilhete premiado na loteria. Caso a vida destas pessoas recomeçasse e em cada momento crucial da vida dela (ambiente em que nasceu, escolha da profissão, escola do primário, com quem se casou, etc) fosse sorteado um resultado, quantas das vezes o dentista chegaria ao mesmo patrimônio que tem hoje e quantas o lixeiro? Qual a probabilidade de um lixeiro achar um bilhete premiado da loteria? E se fossem bebês trocados na maternidade? Quem seria o lixeiro e quem seria o dentista?

Isso acontece todos os dias. A cada decisão que você toma como empreendedor, você está colocando em jogo a fórmula do acaso mais habilidade. Você pode tomar uma série de decisões, inclusive ruins, o mundo conspirar ao seu favor e o resultado ser positivo. Você pode tomar boas decisões, mas o acaso ir contra o seu jogo.

Desta forma, a única estratégia é aumentar a sua habilidade e se colocar em posição de boa sorte. Da mesma forma que um bom investidor tenta comprar uma ação para a qual a probabilidade de alta seja maior que a de baixa, você deve se colocar em situações em que a sorte fique ao seu favor.

A sua chance de encontrar um bom cliente é maior fora do seu escritório do que dentro dele. A sua chance de impressionar um cliente ou investidor é maior com uma demonstração do que com uma apresentação de slides. A sua chance de encontrar um investidor é maior em um café da Vila Olímpia em São Paulo do que em um bar no Rio Vermelho em Salvador.

Não se impressione com histórias sensacionais. Você pode estar na frente de um caso único de sorte. Pense o quanto o acaso foi a favor destes casos extremos. Procure aprender com pessoas que prosperaram em 3 ou 4 negócios, que estão no jogo há mais de 20 anos. A estas pessoas, o acaso já deu tanto a sua parcela de má quanto a de boa sorte.

Obrigado a Roxana Borges, Roberto Pinho e Gabriel Benarros.

Originalmente publicado na Startupi em 12.02.2014

Qual deve ser o futuro do Ginga?

Na minha empresa de ticketing recentemente fizemos uma experiência de desenvolver alguns protótipos funcionais para venda de ingressos na TV Digital. As plataformas escolhidas foram a Ginga ( https://en.wikipedia.org/wiki/Ginga_(middleware) ) e HTML5 + Javascript (que estava começando a ser embarcado nas TVs na época em que iniciamos o projeto).

Em primeiro lugar, este post é para debate: o que vou escrever aqui é a minha visão – limitada – sobre o assunto.

Depois de alguns meses eu me pergunto para que lado vai o Ginga. Ao mesmo tempo em que uma equipe de duas pessoas trabalhava para entregar um protótipo com funcionalidades mínimas, um engenheiro de frontend na plataforma HTML5 fez 2 protótipos (LG e Samsung) e revisou um destes protótipos para ficar compatível com as duas TVs (algo semelhante ao mundo Chrome x Firefox x Safari x Internet Explorer). Se eu quiser modificar a aplicação Ginga, eu sei que vai ser um parto. O ambiente de desenvolvimento e o SDK não ajudam. Se eu pedir para modificar o HTML5, uso toda a infraestrutura atual de frameworks para web (ferramentas e bibliotecas)

Se eu quiser publicar minha aplicação, tenho um marketplace da LG ( http://br.lgappstv.com/appspc/main/main/main.lge?lang=por_BR ) e outro da Samsung ( http://www.samsung.com/uk/tvapps/ ). Se eu quiser publicar minha app Ginga, qual o marketplace que eu coloco? Existe mais um ponto: se eu desenvolvo uma app para a TV nas plataformas mundiais, terei um mercado potencial mundial; mas se eu desenvolver para o Ginga ficarei somente com o Brasil.

E olhando o cenário mundial ele tende a ficar mais competitivo e complicado. Uma pequena amostra do que está ocorrendo:

O mercado não está escolhendo o Ginga. Este é o fato.

O que devemos pensar é se esta iniciativa – o Ginga – ainda faz sentido e como adaptá-la aos tempos atuais. Não adianta olharmos números de devices com o Ginga instalado se absolutamente ninguém usa. Devemos olhar alguma métrica de adoção. O percentual de tablets Androids não corresponde ao tráfego que eles geram. As pessoas compram tablets Android e ninguém sabe onde são usados, pois majoritariamente o tráfego que é observado nos sites vem de tablets Ipad.

Esta situação me faz lembrar de um paper recente do Marcos Lisboa e Zeina Latif, a que tive acesso via o blog do Mansueto Almeida.

Nele os autores discutem alguns itens que cabem neste debate (aproveitando a análise do Mansueto):

  1. No Brasil, há um número crescente de mecanismos (“políticas públicas”) que beneficiam grupos organizados específicos às custas da sociedade. Não se trata aqui de corrupção. Se trata de várias políticas de elevado retorno privado e custo social difuso.
  2. Um dos problemas da democracia brasileira é ainda a elevada falta de transparência e de “accountability”
  3. Como medir o benefício destas políticas públicas para a sociedade?

Então, com este cenário. Qual deve ser o futuro do Ginga? E utilizando o Ginga como exemplo, qual deve ser a abordagem no Brasil para avaliação de políticas públicas?

Neste caso específico acredito que o governo deva pensar como um Venture Capitalist. O mercado adotou a tecnologia? Funcionou? Ok, vamos em frente. Não funcionou? Mudou o contexto? Mata o projeto e vamos relocar o dinheiro em algo mais promissor ou em outra fronteira tecnológica.

Finalmente. Eu não sou contra terem desenvolvido o Ginga. Eu acho correto ter sido desenvolvido e tenho certeza que muita gente  de qualidade foi formada no processo, o meu questionamento é sobre o futuro da plataforma e se ainda vale a pena continuar investindo.

Palestras de ganhadores de loteria

Alguns autores mudam a sua forma de pensar. Nassin Nicolas Taleb é um destes autores. No seu livro Fooled by Randomness, para exemplificar um ponto, ele discute a vida de dois vizinhos. Os dois vizinhos obtiveram ao longo da vida o mesmo excelente patrimônio. Um deles é dentista, formado por uma universidade prestigiada e com uma carreira de sucesso. O outro é lixeiro que achou um bilhete premiado de loteria.

Taleb propõe usando a técnica de Monte Carlo simular a vida destas duas pessoas, milhares de vezes. Cada ponto decisivo da vida dos dois (qualidade da infância, saúde, escola, início de carreira, casamentos, separações etc) seria atribuído uma probabilidade e ao final do encadeamento destes eventos seria verificado o patrimônio. Sem surpresas, na maioria das vezes, o dentista teria uma vida confortável. O lixeiro teria o mesmo patrimônio atual com uma probabilidade um pouco melhor do que achar um bilhete premiado (ele poderia casar com uma viúva milionária, ou achar uma mala de diamantes etc).

No TechCrunch assisti a palestra do David Karp. Me perguntei o que eu estava vendo. A história de um bilhete premiado. As chances de acontecer um novo Facebook, Twitter ou Tumblr são ínfimas. A história deles não refletem a realidade de 99,999% dos empreendedores. Estes empreendedores (sem desprezar a sua competência) ganharam um bilhete premiado. Casos únicos de 32 planetas se alinharem para a empresa deles vencerem.

São histórias diferentes das que você percebe lendo sobre a CycladesSAP, Intuit, Pay Pal, Genentech, Intel, ARM ou tantas outras. Nestas histórias o acaso ainda ajudou [se você não tiver sorte, esqueça], mas se usássemos a técnica de Monte Carlo para simular estas empresas, não teríamos uma chance de sucesso próximo a de um bilhete premiado.

Propagar histórias de bilhetes premiados sem darmos o real peso que elas devem ter, somente servem para propagar exemplos que não acredito serem os mais adequados para a sociedade. Não posso comparar a história destes empreendedores com um Gordon Moore, Gates, Jobs ou com um Herbert Boyer (que com sua empresa, ficou bilionário e melhorou a vida de milhões de pessoas).

Sendo assim, não me convide para palestras de ganhadores de bilhetes premiados.

[06/Maio] Inclui o vídeo da Cyclades.

[19/Maio] Comentário Roberto Pinho

a. Faltou dizer que o tal David Karp deve ter ralado, que ralar é fundamental, que tbm sorte não é condição suficiente, que ralar é o comprar o bilhete;

b. [se você não tiver sorte, esqueça] : ficou aberta a possibilidade de que sorte é algo definido a priori, quase místico. No mundo real, vc só sabe se vai ter sorte depois de tentar…

Sobre a tributação das sociedades uniprofissionais

Alguém pode me explicar qual a lógica de uma sociedade uniprofissional de advogados ser tributada por valores fixos? (ex:  1.713,84 para três advogados = 571,28/advogado/mês. ). O faturamento equivalente seria de 571,28/5% =  11.420,00. Quem está reclamando ganha mensalmente mais do que R$ 11.420,00. Qual a razão de uma sociedade uniprofissional de advogados ter este privilégio e um professor de pós graduação que é contratado via PJ não ter este benefício? Ou qualquer outro consultor? A lei não deveria ser igual para todos?

A minha única resposta para isso é lobby de um setor da sociedade muito organizado.

Na mesma linha, qual o benefício para a sociedade das concessionárias de automóveis pagarem 3% de ISS? Serviço de manutenção de automóvel não tem nenhuma concorrência externa. Nenhuma pessoa vai sair de SP para consertar o carro em Salvador por causa de uma diferença de 2% na fatura, então qual a lógica de beneficiar este setor?